Como amante do desporto motorizado, no que toca aos intervenientes, mormente os pilotos, interessa-me o que eles pensam, como eles vêm e vivem o que fazem, interessa-me também o lado técnico das coisas, tanto na parte mecânica, como na parte de pilotagem.
Nesse aspecto, Valentino Rossi e sobretudo Casey Stoner, estão no topo, e ler uma entrevista deles é sempre algo que me agrada muito.
Em seguida a entrevista mais recente dada por Casey Stoner, onde compara as 1000cc com as 800cc.
Se quiserem ler a entrevista original e completa, consultar o site
crash.net.
P: Especificamente, quão diferente é a 1000 em relação à 800 na entrada em curva, a meio da curva e saída?
Casey Stoner: Bem, a unica coisa acho, não muito diferente da 1000 para 800, só uma melhoria que fizemos com a Honda, é a estabilidade em travagem. A distância entre eixos é talvez um pouco diferente e quando travamos temos, claro, mais estabilidade a entrar na curva. A traseira já não salta tanto. Por isso podemos travar muito mais forte. Por isso, está a alterar os pontos de travagem um pouco menos do que esperávamos. Tudo a partir desse ponto é muito semelhante. Eu acho que melhoramos sobretudo na parte relacionada com o chassis. O peso da mota é exactamente o mesmo, a maneira como vai reagir é muito semelhante, se não igual.
P:
O peso na RC213V é igual?
Casey Stoner:
Agora temos mais quatro quilos, mas isso foi algo que decidiram adicionar muito recentemente. As motas foram desenhadas e construídas e depois eles lembram-se, Ah pois, vamos adicionar quatro quilos. Por isso, não acho que seja a maneira correcta de progredir. E espero que lutem contra isso. Espero que lutem e ganhem porque não fazes regulamentos e depois alteras no ultimo minuto, quando as motas já estão desenvolvidas. Por isso, acho que os quatro quilos extra não vão mudar nada. É mais ou menos o mesmo peso. Se fosse uma diferença de vinte quilos na mota, podia fazer alguma diferença. Neste altura a mota sente-se muito semelhante à 800. A única coisa que é diferente para nós é a maneira como sentimos o chassis. como eu disse, acho que fizemos algumas melhorias ai. E na saída da curva, somos capazes de usar a potência muito melhor, somos capazes de obter mais torque do motor, ter muito mais controle com o motor, porque não é tão pontudo. E na verdade, encontrei muita mais tracção. Por causa do torque extra e controle, quer sair da curva muito mais, antes de começar a derrapar.
P: Podes ser menos preciso com a 1000 e mesmo assim safares-te?
Casey Stoner: Eu diria que não. Numa maneira pequena acho que talvez, porque com o torque extra que tens, podes fazer tipo um quadrado na curva e depois sair disparado. Mas as 800 já tinham muita potência. E especialmente para o fim do seu tempo, tinham muita potência mesmo, e até potência a mais. Continuas a derrapar em todo o lado. Por isso eu diria não. Acho que tens as pilotar numa maneira semelhante. Tentar pilota-las com muita precisão e toda a gente está a tentar massajar os bugs neste momento.
P: Se cometeres um erro, perdoa menos que a 800?
Casey Stoner: Não, acho que são muito semelhantes. As 800, talvez pudesses ter um pouco mais de velocidade em curva. Porque não tinhas a mesma potência com as 800, não tinhas tantos problemas com a frente levantar em aceleração (wheelies). A 1000 claro, especialmente em pistas pequenas com uma caixa curta, vai querer fazer wheelies muito mais, por isso vai ser algo que vamos ter que pensar. Elas custam um pouco mais a virar e consegues manter um pouco mais de acelerador no meio da curva. Mas algo muito ligeiro. Ainda podes pilota-las da mesma maneira. Estive a ver algumas das linhas de todos hoje e a ver as marcas pretas. Ainda usam a pista toda. Eu estou a usar cada vez menos pista, porque estou feliz com o torque extra. Mas no geral podes pilotar de ambas as maneiras.
P:
Disseste que ter um filho vai dar mais significado à tua vida. Quando chegaste a essa conclusão?
Casey Stoner: Eu diria há quatro anos atrás. Sempre soube que existe mais na vida do que correr por muito tempo. Mas quando eu decidi que isto não vai ser eu para o resto da minha vida, comecei a procurar coisas que podia fazer fora das corridas, que é a minha pesca e fazer coisas que realmente gosto. E passar o máximo de tempo possível com amigos. Coisas que perdi porque este campeonato não permite. E todos os meus bons amigos correm noutros campeonatos, por isso estamos todos ocupados em fins de semana opostos e nunca passamos tempo juntos. E tu sentes falta dessas coisas e aprendes que é suposto apreciares o tempo que passas juntos e tentar e passar juntos o máximo de tempo possível.
Q:
Já ganhaste um titulo antes. É mais dificil ganhar um titulo ou defende-lo?
Casey Stoner: Acho que não há defesa de titulo. Não vais para uma temporada com uma vantagem em pontos sobre ninguém. Por isso não acho que aja defesa de titulo. Acho que tens um numero diferente na tua mota, se o escolheres, mas todos começam do zero novamente. Especialmente este ano, passar das 800 para as 1000, por isso não há nada igual ao ano passado excepto que, estamos a correr com pneus nas motas e estamos a fazer o mesmo tipo de campeonato, mas numa categoria completamente diferente. Por isso, não acho que alguma vez entres numa temporada para defender teu titulo. Acho que vais tentar atacar outro titulo.
Q: O ano após ganhares teu campeonato tiveste muitos problemas, que tornaram mais difícil manteres o numero 1.
Casey Stoner: Acho que não começamos muito bem com a mota, a mota de 2008. Tivemos muitas dificuldades no inicio da temporada. Tivemos muitos problemas com a bomba que tentamos ver com a tensão da corrente. Mesmo coisas pequenas para resolver esses problemas. Depois tivemos a câmara que soltou-se e começou a mexer-se de um lado para o outro na minha mota no Estoril, que ninguém se apercebeu. Tivemos um motor a partir em Le Mans. Depois tivemos problemas grandes no final do ano com o meu pulso a partir-se em pedaços, mas toda a gente só se lembra de mim a perder o titulo. Mas eu acho que demos muita luta do caraças considerando o ano que tivemos. E acho que provamos a toda a gente que tínhamos todo o direito de ser campeões outra vez nesse ano, mas tal não aconteceu. AS coisas não correram bem. Mesma coisa em 2009. Estávamos a liderar o campeonato quando o meu problema com a lactose começou a aparecer. Foi só em 2010 que não tivemos desculpa. Não tínhamos a mota, não tínhamos o equipamento, e não resolvemos as coisas rápido o suficiente. Fizemos erros. Puxamos demais em sítios que talvez não o devêssemos ter feito. E as coisas simplesmente não correram bem a partir dai. Mas mostramos no final da temporada que assim que resolvemos as coisas que ainda tínhamos a velocidade saímos por cima numa mota que não nos dava tudo o que queríamos, mas graças a uma parceria fantástica entre eu e minha equipa, conseguimos mostrar a todos que podíamos fazer-lo novamente.
Q: Wayne Rainey disse uma vez que após cada campeonato ele sentia que tinha que ganhar e que não chegava ficar em segundo lugar.
Casey Stoner: Eu acho que este campeonato está a mudar muito. Estou a olhar para ele de maneiras diferentes, semelhantes em algumas coisas à do Wayne. Wayne, era o melhor, por isso não tinha nada para perseguir, mas acho que podes sempre ganhar mais corridas durante a temporada, tens sempre objectivos que podes traçar. Mas para mim, é um problema a maneira para onde o campeonato está a ir e a maneira como as regras mudam sempre, existem sempre desculpas, isto e aquilo, e não parece que é sobre correr como era naqueles dias e existe muito mais do que ir e passar um bom momento. Existe muita coisa no meio. Acho que se vires as coisas da mesma maneira, não me faz feliz olhar para o campeonato, a direcção em que vai. Mas ao mesmo tempo ainda tenho objectivos que posso traçar este ano e tentar atingi-los, mas se não conseguirmos, tenho que ficar feliz com a carreira que tive.
Q:
Um dos seus problemas que tinha por ganhar tanto, é que havia poucos melhoramentos na sua máquina. Isso não parecer ser um problema com a Honda.
Casey Stoner:
Esta equipa, cada pedaço de input que dou, vês que isso os motiva para tentar e fazer melhor. Com a Honda, vês que eles querem apenas continuar a melhorar. Eles não querem nunca ficar quietos. Ano passado não havia muito a melhorar, mas agora com as 1000, de imediato existe muito input a dar e eles estão a tentar perceber todos os pequenos pormenores.
Q:
Em Laguna Seca tiveste uma das corridas mais frustrantes de 2009 e ano passado tiveste uma das tuas melhores corridas.
Casey Stoner: Acho que toda a gente pode apreciar que se calhar a corrida não foi tão fácil com uma Ducati. Que se calhar não era tão fácil como toda a gente pensava que ia ser. Eu dei tudo o que tinha naquela corrida e as coisas não correram bem. Esqueci-me disso rapidamente, mas o resto do pessoal não. Por isso não é mais problema meu.
Q:
A ultrapassagem que fizeste ao Jorge Lorenzo, com que antecedência a estavas a planear
Casey Stoner: Algumas voltas para ser honesto. Não naquele local em particular, mas pensei que se a oportunidade surgisse eu não ia ter qualquer duvida em a fazer. Uma das curvas diferentes que me servem melhor e nas quais eu sempre fui bom é o ultimo sector em Laguna, nada a ver com aceleração, eu era rápido na Ducati. É uma questão de fazeres as mudanças de velocidade no momento exacto, e manter a frente no chão, porque é uma pista curta. As mudanças de velocidade são mesmo rápidos e muito difíceis. Por isso, sempre me senti confortável em sair da ultima curva para a recta principal. Nas voltas anteriores eu estava a apanhar o Jorge de cada vez que passávamos ali. E pensei que se estivesse perto o suficiente e ele levantasse ligeiramente a frente com a mudança de velocidade, que não ia retirar muita velocidade, mas o suficiente para ter aquele momentum. E aconteceu. Se observares bem vês-me a ganhar muita aceleração de repente. Não é isso, é só o facto que ele prolongou aquele cavalinho um pouco demais. Perdeu um pouco de momentum e isso permitiu-me prolongar esse momentum por fora.