O carro que vou falar hoje, foi um dos que mais preencheram meu imaginarium quando era novo, falo do Mercedes 190E EVO II, que a par do espectacular BMW M3 E30, marcaram a época áurea do Campeonato Alemão de Turismos, o DTM.
No final dos anos 70, a Mercedes competia nos rallys, com um grande V8 que equipava os Coupés das Séries R107, sobretudo com o Mercedes 450 SLC 5.0. Na altura, era desejo da Mercedes fazer do 190E o sucessor do SLC, e para tal recorreu aos serviços da Cosworth, para desenvolver um motor com 320cv para equipar esse carro. Infelizmente para a Mercedes, um tal de Audi Quattro com o seu sistema de quatro rodas motrizes, e motor turbo-comprimido, tornou o 2.3L 16V desenvolvido pela Cosworth manifestamente insuficiente para ter sucesso. No entanto, o desejo de competir numa competição de elevado estatuto, onde pudesse usar o 190 manteve-se, e foi ai que se deu a entrada da Mercedes no DTM. As regras do DTM eram diferentes no entanto, os carros tinham que se basear na versão de estrada, e por isso tinham que ser vendidos vários 190, equipados com uma versão menos potente do motor Cosworth, que passou a ficar conhecido por 190E 2.3-16, tendo feito sua estreia no Frankfurt Auto Show em Setembro de 1983.
Por ocasião desse salão, uns quantos E190 ligeiramente alterados cosmeticamente, bateram três records mundiais, em Itália nas instalações da Nardo, onde atingiram uma velocidade combinada de 247,94 Km/h, ao longo de 50.000 Km de um teste de endurance, que os ajudaram a estabelecer doze records mundiais de endurance. Para ajudar à festa, o 190E apareceu também no segundo episódio do Top Gear.
Motor
O motor Cosworth baseava-se no quatro cilindos M102 com 2.3L, 8 válvulas e cerca de 136cv, que equipava os modelos 190 e Classe E da Mercedes. A Cosworth desenvolveu a cabeça dos cilindros, aplicando todo o knowhow que adquiriu entre outros, com o DFV e BDA. Era feito a partir de uma liga leve usando processos de construção únicos, passando a ter quatro válvulas por cilindro, que foram esticadas ao máximo, ou seja, não dava para meter mais nada na câmara de combustão.
Na versão de estrada o 190E 2.3-16 produzia 149cv e 191Nm de binário, mais que a versão que lhe serviu de base.A versão 2.3L-16V produzia 186cv às 6.200 rpm e 236Nm às 4.500 rpm. O apetite por rotações deviam-se às dimensões do motor, 95.50 x 80.25 mm, como de diz na gíria, um motor bem quadrado, levando-o com facilidade às 7.000 rpm.
Quanto às performances, levava 8s dos 0 aos 100 Km/h e atingia 230 Km/h de velocidade máxima. A versão de estrada sofreu algumas modificações, como uma redução da capacidade do motor, diminuição do tamanho do sistema de escape, entre outros como o sistema de injecção. Estas alterações ajudaram a baixar a potência para os 185cv requeridos. Mesmo assim era tido como um motor espantosamente flexível, com uma curva de binário muito plana, e uma banda de potência ampla. As cabeças do motor eram feitas em Worcester, na Cosworth Costast e depois enviadas para a Alemanha onde eram inseridas no resto do motor, motor esse que possuia outra peças diferentes da versão 2.3 Standard, entre os quais pistões em alumínio mais leves, e componentes desenhados para suportar velocidades maiores, enquanto outras peças foram consideradas à altura do desejado.
Versão 2.5
Em 1988 o motor 2.3L viu sua capacidade aumentada para 2.5L, tendo sido resolvido alguns dos problemas de fiabilidade que a versão anterior apresentava. A potência subiu 17cv e o binário também melhorou ligeiramente. Na versão Europeia sem catalisador, já desenvolvia 204cv, enquanto a versão equipada com catalisador, a 2.5-16s, tinha 197cv. Um pormenor que deu azo a muita discussão, foi saber onde é que este 2.5L era produzido, se na Mercedes, se na Cosworth.
Na verdade, a Mercedes não estava muito satisfeita com o facto de o seu modelo mais bem sucedido, ter um motor desenvolvido por uma companhia Britânica. No entanto, algumas cabeças de cilindro dos carros 2.5L, vinham com o Logo de Coscast, indicando que foram produzidos na fundição Cosworth, tal como a versão 2.3L. Além disso a Cosworth tinha um código para este projeto "WAB", para o desenvolvimento da cabeça do 2.5-16V, tal como na cabeça do 2.3-16V. Na altura, a Top Gear previu que o modelo 2.5 ia tornar-se um dos futuros carros clássicos do mundo, devido à sua história relativamente desconhecida e rivalidade feroz com o BMW M3.
Diferenças entre os 16V
Devido às suas performances, os carros equipados com motores 16V eram muito diferentes dos restantes modelos 190. O body-kit do 2.3-16 e 2.5-16 viram o coeficiente aerodinâmico descer para 0.32, um dos valores mais baixos para um sedan de 4 portas da altura. A direcção era mais rápida, e o volante era mais pequeno que nos restantes 190, enquanto o tanque de combustível passou de 55L para 70L. A caixa era uma Getrag, manual com 5 velocidades, exclusiva para a versão 16V, que tinha a particularidade de ter um padrão racing, com a 1ª velocidade a ser à esquerda mas para baixo, fazendo com que a 2ª, 3ª, 4ª e 5ª mudanças estivessem num H simples, para permitir um manuseio mais rápido e fácil. Já a facilidade nas trocas de caixa, não era muito bem vistas, sendo tidas como imprecisas, e abaixo do que o rival BMW M3 conseguia, com uma caixa de velocidades idêntica. Este esquema de mudanças tem outra particularidade, que tem a ver com a marcha-atrás, que para ser seleccionada tem que se ir para a esquerda e para cima, a partir do ponto-morto, quando num setup normal seria a 1ª velocidade. Isto foi demonstrado no Top Gear, na 15ª temporada, Episódio 2 onde vemos James May repetidas vezes a revelar dificuldades com esta configuração.
Os interiores tinham assentos Recaro desportivos, com forte apoio lateral, além disse possuía três mostradores extra, um para a temperatura do óleo, um relógio e um voltímetro, todos na consola central. Quanto a cores havia apenas duas, Preto-Azul Metálico e Cinzento. A versão 2.5-16V passou a incluir o Vermelho Almandine e outra variante do cinzento (Cinzento Astral).
Todos os modelos com motor 2.3, vinham equipados com um LSD, Limited Slip Diferencial, assim como o sistema Mercedes ASD nas versões 2.5-16V. O ASD é um dispositivo electrónico que permite bloquear o diferencial quando necessário. Este sistema permite bloqueios de 15% a 100%. Não se trata de um sistema de controle de tracção, pois permite apenas maximizar a tracção em vez de impedir as rodas de derraparem.
A suspensão dos modelos 16V também é diferente claro. Além de ser mais baixo e duro, os amortecedores são mais rápidos, tem barras anti-aproximação, componentes reforçados e suspensões auto-niveláveis na traseira, que permitem manter a altura da traseira constante, quando o carro está em carga máxima.
Em 1984, no circuito de Nurburgring, ocorreu um evento engraçado, onde vários pilotos actuais e antigos de Formula 1, participaram numa corrida. Entre outros famosos da Formula 1, um tal de Ayrton Senna acabou de vencendo a corrida.
Pouco tempo depois, equipas privadas como a AMG começaram a usar a versão 2.3-16 em corridas de turismo, sobretudo no DTM, e foi nesta competição e durante vários anos que o E190, mais tarde com o motor 2.5-16 correu contra o BMW M3 e Ford Sierra RS Cosworth, entre outros.
Modelos Evolution
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| O meu favorito, a ultima versão o Evo II |
Com o lançamento do BMW M2 Sport Evolution, o grande rival da Mercedes, ficou óbvio que o 2.5-16 precisava ser melhorado, e então em Março de 1989, o 190E 2.5-16 Evolution fez sua aparição em publico no Salão de Geneva, ficando conhecido como Evo I. Tinha um novo spoiler e cavas de rodas mais largas. A maioria das modificações foram feitas debaixo da pele deste menino, sobretudo nos travões e suspensões. Havia agora um sistema de suspensão SLS que permitia alterar a altura da suspensão a partir de um interruptor no interior. Todas estas modificações tinham apenas um objectivo, tornar os carros Evolution ainda mais rápidos nas pistas.
| O EVO I |
Foram produzias apenas 502 unidades do modelo Evolution, as necessárias para o homologar de acordo com as regras DTM. Para os clientes que desejassem mais performance, existia o PowerPack, produzido pela AMG. Alterações em vários pontos fulcrais, permitiam aumentar a potência em cerca de 30cv.
Em Março de 1990, novamente no Salão de Geneva, o mundo viu a chegada do 190E 2.5-16 Evolução II, que viu suas 502 unidades serem vencidas ainda antes da revelação inicial. Na altura, o preço por uma unidade era superior a 70.000€.
O Evo II incluia o PowerPack da AMG, a ultima evolução do motor 2.5 Cosworth, o sistema SLS de suspensão. A mudança mais vísivel era claro o novo body kit, desenhado pelo Professor Richard Eppler, da Universidade de Estugarda, que incluía uma enorme asa traseira ajustável, spoiler no vidro traseiro, e jantes Evolução II de 17 polegadas. Este kit tinha como objectivo, dar mais carga aerodinâmica ao Mercedes. Na altura, um dos executivos da BMW teve uma afirmação curiosa "se aquela asa traseira funcionar, teremos que redesenhar o nosso túnel de vento". 500 unidades foram vendidas no Preto/Azul metálico, enquanto as unidades 501 e 502 foram vendias no Cinzento Astral.
Com tão poucas unidades vendidas, e uma história e áurea tão grandes, estes carros são extremamente raros e muito procurados por coleccionadores. Muitos poucos voltaram ao mercado de vendas na Europa, visto que a maioria deles foi para às mãos de coleccionadores que os mantém em armazéns privados. Um facto importante é que um número grande de Evo II foram importados privadamente para o Japão, e que esses carros aparentam ser as únicas unidades disponíveis para venda nos últimos anos.
Modelos AMG
Na altura, a AMG não fazia parte da Mercedes-Benz, como agora. Era apenas uma empresa de tuning e preparação de carros de corrida, onde já tinha bastante experiência. No que toca ao 190E, já tinham muita experiência em alterar os carros para os clientes, assim como outros modelos da Mercedes. Conseguiam facilmente obter mais 25cv de potência do motor. Além disso, equipavam os 190 com spoilers melhorados, que permitiam baixar o CW, o coeficiente aerodinâmico, dando maior estabilidade a altas velocidades. Jantes em liga leve, interior em cabedal, motores aumentados até V8s com 6L de capacidade.
Após os sucessos obtidos no DTM, a Mercedes adquiriu a AMG em 1 de Janeiro de 1999. O E190 3.2 AMG, foi o primeiro modelo a ser vendido nas stands Mercedes-Benz e com garantia de fábrica. Foram produzidos cerca de 200 carros completos, em preto e cinzento, tendo a particularidade de serem muito caros, com preços a rondar os 85.000€. Além desses 200 vendidos, a Mercedes comercializou body kits AMG e motor 3.21 AMG separadamente, por isso houve 190 equipados com estes extras nas fábricas, ou em versões mais antigas do EVO. Este versão tina um 6 cilindros em linha com 12 válvulas e 3.2L de capacidade, com uma potência de 234cv, capaz de o levar a uns impressionantes 260 Km/h de velocidade máxima.
Quanto às versões que competiram no DTM, não existem dados exactos, mas estima-se que a potência máxima rondasse os 375 cv, mas o que os distingue mesmo é o som maravilhoso das trompetas de admissão.
| A ultima evolução do EVO, a mais performante mas menos espectacular esteticamente. |






